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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Um mundo en su vejez [das sentenças]

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Um mundo en su vejez [das sentenças], por Jaime Medeiros Jr.

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A qualquer momento, supondo nenhum atraso, a mãe haveria de descer do trem. Naquela gare a saudade não se colava mais aos fatos, era apenas a brusca síntese do que lhe restara.

Lá na outra ponta do banco, só aquele homem, quieto, ensaiava dormir.

Se pusera, então, por dentro de um bulício que o arrastara até aquele rancho a se sumir por trás dos tempos. A sentença do avô ainda não se lhe apagara da lembrança:

– Não volte mais a esta fazenda, por favor, isto hoje é tão-somente terra de mortos e não podemos mais ter parte contigo.

A gare o fazia recordar que era preciso se por nos trilhos, mas a estação era indecisa por natureza, um grande entroncamento de linhas. Sempre haveria de vacilar quanto a que rumo tomar.

Lembrava, tinha aprendido das ovelhas o como tratá-las na sua prenhez, quando doentes e até mesmo o jeito de as olhar na hora de levá-las à morte. Umas mergulhavam silenciosamente, outras berravam. Todas haveriam de atingir igualmente a eternidade. Eternidades, e contudo sem nenhum ponto de contato entre si.

Ele, ainda ali na gare, a esperar a mãe que não chega – ainda tinha de haver um ponto de contato – põe aqueles olhos que não existem, e que contudo carregamos, sobre si. Mais uma sentença:

– Estou a parecer um pastor.

Lembra de si naquele ponto junto ao fogo onde se tomava de silêncio, onde se ouvia atento a conversa desfiada de quem se punha a falar. Ali aprendera, meio aos tranquitos, que todos tinham um só seu jeito de desfiar uma história. E um só seu jeito de morrer.

Agora lá no outro extremo do banco, parece, se fez algum ruído. Então, o homem quieto põe os seus olhos quietos sobre ele, e diz:

– Pastor, nossa senhora me disse que devemos orar não só por nós, mas por todos!

Cessa, então, o bulício por dentro daquele homem, quieto, que agora se ajeita no banco e novamente ensaia dormir.

Ele, por fim, acorda de si. Adivinha que a mãe nunca haverá de chegar, pois desde muito tudo é tão-somente atraso. Se levanta e deixa a gare. Sabe que tem de tornar à casa.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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