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04
jun
13

A crônica de Ademir Furtado – Recados de Londres: Um país que anda

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Um país que anda, por Ademir Furtado

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bus-london.

Coisa que não me parece muito inteligente é fazer comparações entre países ou culturas. Isso é avaliar um pelas medidas do outro, o que resulta sempre numa visão de hierarquia do tipo um é melhor ou pior que o outro. Creio que as comunidades se organizam de acordo com suas necessidades e potencialidades, que são, por sua vez, determinados por uma série de fatores intrínsecos.

No entanto, algumas diferenças são por demais gritantes porque dependem das escolhas das prioridades na condução dos assuntos públicos. E aí, entra a questão do bem comum social, preocupação que acompanha a humanidade pelo menos desde os gregos.

E, em se tratando de bem comum, se há algo de que os ingleses podem se orgulhar, pelo menos em relação aos brasileiros, é o transporte público. Andar de ônibus aqui, aqui em Londres, pode não ser o passeio ideal para um turista, mas certamente não é o suplício que se vive nas cidades brasileiras. Veículos em bom estado de conservação, conduzidos com a educação e o respeito de quem sabe que está carregando seres humanos. E com a periodicidade e precisão de deixar com inveja alguém que já esperou quarenta minutos numa para de ônibus no Brasil. Nem falo do metrô, por ser um transporte que não uso no meu cotidiano brasileiro. Limito-me à tranquilidade que se tem de saber quanto tempo se deve esperar numa parada. Como aconteceu num domingo, quando decidi aproveitar uma rara manhã de sol e passear num parque, acompanhado de um colega. Algumas linhas não funcionam domingo, e estávamos em dúvida, por não entender bem os códigos dos cartazes com informações sobre os horários. Então, meu colega sacou do bolso uma daquelas engenhoquinhas fantásticas, digitou meia dúzia de teclinhas e enunciou triunfante: “falta 1 minuto”. E foi só o tempo de guardar a maquininha de volta e o ônibus apareceu na outra quadra. Desse nível de eficiência resulta um trânsito civilizado, que flui com regularidade, com poucas ocorrências de congestionamentos. É um país que anda.

Numa hora dessas, mesmo correndo o risco de parecer superficial, é difícil fugir das comparações. Ou, por outro lado, é bom exercício mental fazer uma avaliação das escolhas das prioridades em nosso país. Quando se percebe que a medida de bem estar de um povo é a sua capacidade de consumo, é sinal de que alguma coisa está errada. Só mesmo uma mente distorcida poderia abandonar as preocupações com o transporte público e promover incentivo para compra de carro que vai ficar trancado no congestionamento, ou andar sacolejando em estradas cheias de buracos. .

Seria bem proveitoso, para o bem estar do povo brasileiro, se os nossos governantes mudassem o foco em suas concepções e entendessem que a riqueza de um país não é medida pelo número de carros que cada família tem na garagem, e sim, pela qualidade dos serviços e bens públicos que o povo tem para usufruir.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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