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28
abr
10

A crônica de Jaime Medeiros Jr.: Uma noite auspiciosa

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Uma noite auspiciosa, por Jaime Medeiros Jr.

04

Saí da livraria onde comprara o livro. Fui ver o que estava passando no cine Guion. Estava bastante cansado. Desisti de ver o filme. Um amigo telefona. Marcamos de nos ver em um pouco mais de uma hora. Então me pus a ler. Livro bilíngüe, textos em espanhol e português. De repente me salta a vista aquela palavrita, em meio ao texto espanhol, que me pareceu estranha. Anhelo. Queria que estivesse escrito añelo. Fiquei com a impressão de que havia algum descuido na edição.

Sigo pro bar onde ficara de encontrar o amigo. Sento, peço um guaraná zero. Aguardo. Tomo todo o guaraná. Quando acabo de pedir e de receber o segundo guaraná, chega o amigo. Cumprimentos. Pede uma cerveja. Me pergunta o que trago na sacola. Mostro-lhe a nova edição da obra completa de Freud, e aqueloutro livro que tinha começado a ler os primeiros capítulos um pouco antes de o encontrar.

Comento com ele sobre a impressão que anhelo tinha me causado. Ele cheio de uma quase certeza certeira, tenta me explicar, achava que era assim mesmo que se escrevia anelo em castelhano, e que aquele h não importava nada em termos fônicos, era mudo. No entanto não ficamos satisfeitos com aquela sua quase certeza. E ele me diz – mas ali está quem pode solucionar este nosso problema. Aponta uma bela menina que atende naquele bar, de ascendência e acento hispânico.

Puxo o livro. Oh Platero y yo , exclama a bela menina, de forma não livre de encantos. Aclaramos a ela a nossa dúvida. Ela concorda com meu amigo, se escreve anhelo mesmo. E acrescenta, não existe añelo [depois vim a descobrir no Google que há uma cidade na Argentina com este nome]. Por fim fora vencida parte de minha ignorância. Agradecidos eu e meu amigo seguimos conversando. Mas a menina ficara intrigada, pois no momento não sabia nos explicar a regra que determinava aquela ortografia. Um tempo depois volta com um conjunto de palavras do espanhol que se escreve com o dígrafo nh. Tenta formular uma explicação, ela realmente queria um porquê. Foi realmente enternecedora aquela sua boa vontade para conosco.

Não demoramos. Fomos a outro bar mais calmo e propício ao salutar hábito de jogar conversa fora. Aplacamos momentaneamente o nosso anseio de falar e ouvir a quem se gosta. Estava cansado o que tornou um tanto breve o nosso exercício. Depois de nos despedirmos e me entregar ao meu solitário caminho até o lar, retomei a conversa que tivéramos com aquela menina. E me lembrei daquela sua preocupação com o porquê de ter de se incluir aquele h em anhelo. E neste passo já adianto todas as minhas escusas aos sábios linguistas, que conhecem todas as reentrâncias da língua. Mas como eles, cientistas que são, também abandonaram os porquês, se detendo mais especificamente sobre os comos, e também rejeitaram aquilo que nos tempos de Aristóteles ainda entretinha o filósofo, a por ele denominada causa finalis. Deixando estes como matéria espúria a com que se entreter somente os metafísicos e os fabulistas. Então tomei a peito a criação de um pequeno fabulário pessoal, à guisa de explicação para o singelo fato daquele h estar imerso em anhelo.

Primeiro revirei as gavetas do meu desavisado simbolismo, e me pus a observar a forma da letra H quando maiúscula, a primeira impressão é a de que levanta uma barreira que separaria em duas partes a palavra, depois observando mais atentamente pensei que o H lembra de certo modo as duas colunas do templo, e que o travessão central nos lembra que Jachim não vive sem Boaz e que Boaz não vive sem Jachim, e que de certa forma Jachim anseia por Boaz e Boaz anseia por Jachim, é este anhelo que nos faz. Ou ainda dentro deste modus simbolista poderíamos também antever na forma desta letra, a ponte, o anhelo que liga as duas margens do rio.

Sigo então a construir teorias simples do porquê daquele pequeno h estar ali, sou surpreendido pelo ingênuo solipsismo de lavra romântica, que acredita que aquele h está ali para que eu possa ler a palavra, ter a dúvida, e ser esclarecido por aquela menina em sua boa-vontade encantadora. Não muito tempo depois o mesmo solipsismo, agora em vestes pragmáticas, advoga que tudo isso se deu para que eu alargue o tanto que me cabe neste latifúndio, escrevendo este texto, pois afinal tenho de escrever um texto a cada duas semanas para a Palavraria.

Mas de todas as simples teorias que desenvolvi, a que mais me encanta é a que nos diz que aqui vivemos um dos momentos de generosidade da língua, pois anhelo me parece de uma beleza bem maior do que anelo. A língua é injusta com muitas palavras, basta lembrar a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo caber, e verás que não é a tudo que cabe ser belo, mas a todos cabe o anhelo de sê-lo.

Chego a minha casa. Adormeço. Adentro a região dos sonhos, que apaga todas as nossas teorias, mas não o nosso anhelo.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Um dos produtores do Portopoesia. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

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