Posts Tagged ‘violência

03
abr
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência III

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Trilogia da violência III, por Guto Piccinini

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O terror não tem palavra. Ele se esgueira por detrás, de sobreaviso. Desliza sorrateiro e se instala em nós, de modo incompreensível. O terror não tem palavra, e não há dia em que eu não busque palavra que dê conta desta hiância. Tento. Espero. Estas noites eu reviro meu corpo em dois. Não é possível revirar-me na cama. Até as ridículas banalidades não são permitidas. Afinal, são de banalidades que nossa vida faz sentido. E são exatamente estes dois detalhes que não passam despercebidos: vida e sentido. Estas noites carregam no tempo sua intensidade. Um estado de tensão constante. Um dia te direi desta angústia que precede o ato. Hoje não te digo, por motivos óbvios. Mas não perco a esperança.

De duas em duas horas nos acordam ligando as luzes e/ou emitindo algum som alto. Batidas em nossas portas. As vezes os gritos já são o suficiente. Enquanto digo, vieram me buscar em meio a este sono descontínuo. Nos pegam no corpo como objetos desprezíveis. Um saco de corpo, é o que quase consigo sentir, enquanto esboço, mecanicamente, nuances de reação. Sou posto em uma cadeira. A mesma de sempre. Cheira a suor e sangue. Deixam assim para intimidar logo de cara quem é trazida para cá. Fico por horas sendo observado por um grupo. Parecem esperar algo, ou talvez queiram me fazer esperar. O segundo que precede o ato é povoado.

Ele entra contundente. O terror não tem palavra: ele entra e desfere em meu rosto desfigurado pelo tempo um tapa tão forte que consigo ouvi-lo de fora de meu corpo. Dói, e sinto escorrer um lágrima de meu olho. O grupo que me envolve na sala quebra seu silêncio anterior e ri. São homens como eu, digo, mas não sei ao certo que humanidade referencio. A sequência segue o script. As perguntas são as mesmas, não fossem as palavras diferentes. As respostas são as mesmas, não fosse a tentativa que delas se fizesse um outro contexto. Hoje morri mais um dia. Como morri no dia em que me colocaram dentro de uma viatura. Como no dia em que ameaçaram minha família. Morri como no dia em que fui examinado para saber se meu corpo aguentaria por mais um tempo. Morri e agora sou outro. Digo.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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19
mar
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência II

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Trilogia da violência II, por Guto Piccinini

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Minha querida

Fico feliz em finalmente tomar um papel e lápis e escrever-te estas palavras. Foram longos os anos que nos separam deste dia, e peço que não repare esta letra que mal se insinua por estas linhas tortas. Carrego ainda comigo estas mãos trêmulas que, como vês (e se escrevo é porque espero que vejas), não me permitem esconder-me como gostaria. Tu muito sabes que o tempo raramente sossega as marcas. É uma mentira mal contada. O presente é um tempo acumulado, e o esquecimento é uma dádiva para poucos. O mesmo posso dizer do que me sobra de paciência (que continua escassa) para dedicar a palavra sobre isso, mas verás que já começo a soltar algumas amarras. Há muito que desacredito das palavras. Este é um dos motivos pelo qual te escrevo e minha esperança de que que receba esta carta com carinho. Não por conforto. Imagino que estejas cansada desta caminhada, ao mesmo tempo que nela nos sustentamos. Então não me delongo mais nas escusas, não mais do que uma frase: penso todo dia no que ainda deves passar, penso em ti ao longo de todos estes anos e culpo-me por não ter estado perto. Guardo em mim a última vez que nos vimos e sinto como se fosse ontem teu olhar pousado ao meu no dia em que nos despedimos.

Estes dias têm sido ainda mais duros do que nunca. Meu esforço em me manter afastado é tentador para este velho corpo que me carrega. Como nos conhecemos por quase toda uma vida, já antevejo seus movimentos furtivos e preparo-me para os primeiros movimentos involuntários, que nos tomam de assalto, sem pressa e, aos poucos, transformam a tênue paz que construímos sobre o indizível. É em torno deste indizível que meu corpo perece e persiste. Vivo como um estranho em mim. Nestes arrastados anos, posso dizer-te que o sofrimento é maior apenas quando esta sensação me invade como se estivéssemos lá, neste exato instante. Tomado de vertigem, sou arrastado de mim novamente, como se pudesse sentir o cheiro ocre e a minha própria pulsação a servir de deleite para o estranho que, hoje, invento. Dispositivos de permanência, que dobram este passado infame sobre o que nos resta. O barulho dos passos contundentes, a iminência presente na cegueira proposital e o medo. Não tenho como te explicar, pois careço de explicações para mim mesmo. Tento esquecer, mas já aprendi que para o apagamento é preciso que não deixemos de repetir a palavra. Quem sabe um dia ela possa se tornar outra.

Eu estava sozinho em minha cela quando ouvi levarem um dos nossos. Não recordo exatamente o motivo, mas lembro que durante um tempo o prédio se esvaziara quase por completo. Era possível ouvir mais do que eu gostaria, e é com pesar que este custo me permite escrever-te este testemunho.  Vi quando o levaram, lá para onde levaram todos. Todos. Depois de algum tempo nos tornamos apenas “mais um”. Foi lá que perdi meu nome, porque continha em mim o nome de todos os outros. Passados alguns minutos, após cerrarem a porta com o gozo em punho, pude então ouvir, em volume máximo, o velho rádio sempre presente na abertura destas sessões intermináveis. Ele estava lá, como eu e tantos outros. Não mais o vi.

Por aqui fico. A ti, espero que possas encontrá-lo.

Com carinho.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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06
mar
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência I

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Trilogia da violência I, por Guto Piccinini

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6h20. Ele levanta com um característico mau humor matutino. Ela ao seu lado já pouco se importa. Aproveita o momento para divertir-se com o marido introspectivamente (já que de outra forma já não poderíamos chamar de diversão) enquanto o vê tropeçar por entre as corriqueiras e introdutórias atividades cotidianas. Pregado na cama, os segundos após o despertador anunciar a chegada de mais um dia era vivido como o inferno na terra. Sair da cama sempre fora um de seus maiores martírios. A fleuma de homem robusto lhe impedia de produzir um sono tranquilo, e cada noite seguia-se uma batalha diante do silêncio. Com os olhos atentos e despertos da mulher no seu encalço, segue cambaleante até o banheiro para conferir no espelho o que sobrou da saga noturna. Nada inspirador. O banho lhe revigora as esperanças. Um susto. Enquanto isso, a mulher segue à cozinha para arrumar o café. Todo o sacrifício do marido, desde sono agitado e os pesadelos recorrentes, ao despertar peristáltico, logo que o conheceu, e não mais muito tempo após se casarem, conferia aos seus olhos um certo charme ao homem. Destes olhares que produzem um carinho incompreensível e sustentado apenas pela jovial novidade dos casais recém encontrados.

6h42. Sentam-se à mesa. O clima já é outro, passando de uma cena tragicômica para um démodé regado a café sem açúcar. O casal se esforça para encarar a sanidade cotidiana. “Me passa o pão”. Alguns sorrisos, uma leitura detalhada do jornal disposto à mesa e, no auge da felicidade conjugal, demonstrações de carinho de leve a moderado. Ele nunca fora dado a demonstrações explícitas de afeto. Ela sabe. “Tem mel ainda?”. O que vem é lucro. Digna de seu respeito, tratava-a bem comparado à média de sua época. Essa, como se sabe, não permitia ainda qualquer elaboração mais complexa sobre os possíveis papéis do homem e da mulher na vida à dois. “Já acabou o café?”. Longe de ser a vida dos sonhos, mas longe de ser uma vida infeliz.

7h23. Ele percebe o atraso, e se encaminha para o trabalho rapidamente. Decide pegar um táxi. Hoje é dia de plantão, e isso aguça sua indisposição com a luz do dia, que agora lhe penetra os olhos desprotegidos. Esquece dos óculos escuros. “Bom dia seu Carlos!”. O trabalho lhe diverte, pensa. Dentro do carro que titubeia por entre um trânsito agitado, ele sente o cheiro forte de lavanda que carrega o ar. O motorista, exageradamente simpático, tenta iniciar uma conversa qualquer por ele desprezada. Desde o momento em que botara os pés na rua já sentia a transformação no corpo. O peito inflado, tons de leve ironia e arrogância a lhe penetrar pelos ombros, os braços e as pernas eufóricos e seguros. A mão, que antes tremia, agora permanece impávida. Desce duas quadras antes do serviço e segue a pé. Para em frente a casa amarela, olha duas a três vezes para os lados para que ninguém o veja. Entra. Desce dois lances de escada. A luz mal ilumina o local. Três cômodos apertados. Entra por uma das portas, e encontra três companheiros que vararam a noite. Estão cansados e não se animam com sua chegada. Ele entra, olha para o corpo amarrado a sua frente. Goza com este tempo da iminência. Sorri e desfere o primeiro tapa.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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26
nov
09

Aconteceu na Palavraria – Luís Dill autografa

Ontem, 25, uma seleta platéia prestigiou o lançamento do livro O dia em que Luca não voltou, de Luís Dill. O livro pega uma temática pesada: o desaparecimento de pessoas – no caso, o de um adolescente. Para confrontar a história de ficção com a vida como ela é, Dill convidou o capitão da Brigada Militar e também escritor Oscar Bessi Filho, que – no papel do policial experimentado na questão –  nos apresentou um detalhado testemunho de suas vivências na investigação e no resgate de pessoas desaparecidas, sequestradas e em situações do tipo.

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julho 2019
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