Arquivo de outubro \31\UTC 2012

31
out
12

A crônica de Guto Piccinini: Sobre a morte (1)

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Sobre a morte I, por Guto Piccinini

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A morte é sempre uma experiência traumática. Configura um acontecimento de proporções que extrapolam as palavras e ao possível de ser simbolizado. Não podemos tomar a morte apenas como um corpo que tomba, uma vez que este corpo é permeado por uma sequência de discursos, uma linha que costura nossa existência (e como a vamos concebendo) e a todos a sua volta. Enlace “místico”, recheado de desejo e suposições. A morte, pois, reconfigura de modo trágico esta linha simbólica em que nos enlaçamos, e cujas consequências apenas compreendemos um tempo após o acontecimento em si. Denominamos “luto” esta passagem, este movimento de ir e vir compondo novas redes simbólicas sobre esta existência, ou talvez possamos denominar esta nova fase como uma “não-existência”. Existência ausente, como uma fantasia bem elaborada e que compõe novos sentidos, novas histórias. Ao passo que algo sempre permanece, algo sempre nos escapa.

Falar sobre a morte requer também que deslizemos do privado ao público, oscilando entre estes campos encontros possíveis. No primeiro caso, uma vida que esvai carrega consigo um mundo, uma história. São olhares que se perdem no tempo. Como colocamos acima, não há palavra que signifique o que é perder alguém querido, alguém que nos faça sentido. Literalmente perde-se algum sentido (simbólico e afetivo). Já no segundo caso, a relação se distingue exponencialmente: enquanto o acontecimento em si enlaça um corpo a seu destino traçado e incontornável, a ordem discursiva carrega como um furacão os sentidos sentidos. Argumenta-se que a ossada de um rei de nada se distingue de seu súdito mais miserável. Em vida, no entanto, há vidas mais matáveis do que outras. Isto, ao menos, é aquilo que legitimamos.

Sem dúvida, existem muitos modos de se encarar a morte. Um, que me guarda grande estima, carrega consigo uma desvinculação entre a noção de “vida” com um traço “biológico”. Um corpo, por esta via, será apenas um dos modos pelo qual a existência marca sua passagem. A vida enquanto corpo tem como um único direcionamento o existir, “independente da qualidade desta existência”. Não seria esta uma possibilidade de considerarmos a morte uma potência de vida? Não seria esta uma forma de nos debatermos com a vida sem potência? Michel Foucault é um autor marcado por seus estudos sobre o “poder”. Ao contrário da concepção mais corrente, do poder enquanto uma substância que as pessoas detém, marca o poder enquanto uma relação. É no entre-meio que as relações de poder se efetuam. Sai do “poder-forma”, e afirma um “poder-força”. No transcorrer de seus estudos, demarca a passagem de um poder da Soberania, no qual um rei detém o poder sobre a morte de seus súditos, para um poder Disciplinar, onde a relação de poder exerce sobre as vidas. Deste modo, o poder não mais se exerce marcado pelo “deixe viver, faz-se morrer”, articulando um “deixe morrer, faz-se viver”. Imprecisão esquemática, mas operativa quanto as formas: a vida passa a ser um ato político, enquanto a morte, um ato de resistência.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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30
out
12

Vai rolar na Palavraria, nesta quarta, 31/10: Exército de um homem só, com Franciso Marshall, Fernando Ramos e Leila de Souza Teixeira na Vereda Literária

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31, quarta, 19h: Vereda Literária: Leila de Souza Teixeira conversa com Fernando Ramos e Francisco Marshall na mesa “Exército de um homem só”: idealizadores e organizadores de eventos literários falam sobre suas experiências na batalha por levar a literatura para as ruas.

Francisco Marshall, curador cultural do StudioClio, é Professor Doutor nos cursos de pós-graduação em Artes Visuais e História da UFRGS, coordenador do Curso de Especialização em Museologia na mesma instituição, pesquisador e arqueólogo com atividades internacionais, é autor de diversas publicações sobre suas áreas de atuação. É um dos gestores do Fronteiras do Pensamento.

Fernando Ramos editor do jornal Vaia há 11 anos e idealizador e organizador da FestiPoa Literária

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Leila de Souza Teixeira, nascida em Passo Fundo (RS), em 1979, é formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O interesse por literatura a levou a cursar a Certificação Adicional em Escrita Criativa, na PUC/RS, bem como a participar das oficinas literárias de Charles Kiefer, Luiz Antonio de Assis Brasil e Léa Masina. Venceu, em 2006, os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE. Publicou contos nas antologias Inventário das delicadezas (2007) e Outras mulheres (2010) e na Revista VOX do IEL/RS (2011). É autora do livro de contos Em que coincidentemente se .É idealizadora e curadora da Vereda Literária.

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A VEREDA LITERÁRIA é um evento anual, próximo ao período da Feira do Livro de POA, mas fora das mediações da Praça da Alfândega (não com o propósito de oposição, mas com o de adição: propor mais um caminho, ou mais uma vereda, que fomente novas discussões literárias). A realização do evento não tem fins comerciais e não conta com patrocínio. Por isso, essa Vereda é fruto do trabalho e doação dos seus idealizadores, da parceria de amigos ligados a área da literatura e cultura, e, é claro, da boa vontade dos participantes das ‘mesas’.

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29
out
12

Aconteceu na Palavraria, neste sábado, 27/10: Bianca Obino convida Ana Santos

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Aconteceu na Palavraria, neste sábado, 27, o encontro de Bianca Obino com Ana Santos. Última apresentação do programa Bianca Obino Convida, levado na Palavraria por três anos. Leituras. Canções. Emoções de despedida. Fotos do evento.

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28
out
12

Vai rolar na Palavraria, nesta segunda, 29/10: Lançamento do livro Benjamin, de Biagio D´Angelo

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29, segunda, 19h: Vereda Literária: Lançamento do livro Benjamin, de Biagio D´Angelo. Conversa com o autor.

Benjamin é uma criança que está vivenciando os desafios e as alegrias da infância. O protagonista narra suas experiências com sensibilidade e poesia sem igual. As ilustrações, como numa dança, abraçam o texto, ampliando a significação da obra e apresentando o universo interior e onírico do personagem com extrema maestria e delicadeza.

 

Biagio D’Angelo é mestre em Línguas e Literaturas Estrangeiras, área de Eslavística, pela Universidade de Veneza Ca’ Foscari (1992) e doutor em Teoria literária pela Universidade Russa de Estudos Humanísticos (1998). Lecionou literatura na Universidade Pázmany Peter, de Budapeste (Hungria), na PUC-SP e atualmente leciona Teoria da Literatura na PUC-RS (Faculdade de Letras).. Dentre suas publicações, destacam-se Borges en el centro del universo (Lima, 2005), Las babas del sabio. Ensayos sobre la dislocación de la escritura (2007), Comparaciones en vertical. Conflictos mitológicos en las literaturas de América Latina, escrito com Paola Mildonian (2009), e Oriundos das palavras. A meta da literatura em Machado de Assis e Guimarães Rosa (Porto Alegre, Ed. UFRGS, 2011). Seu recente livro Benjamin. Poema com desenhos e músicas (São Paulo: Melhoramentos, 2011) ganhou o Premio Jabuti 2012 (1º lugar em Literatura Infantil-Juvenil).

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28
out
12

Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 26/10: Vereda Literária 2012

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Aconteceram na Palavraria, nesta sexta, 26, dois encontros da Vereda Literária:  no primeiro, Gustavo Czekster conversou com Daniela Langer e Rafael Jacobsen sobre Visceralidades: literatura, fluidos e outras coisas mais. No segundo, Rafael Jacobsen  recebeu Gabriela Silva e Reginaldo Pujol Filho para desvendar os mistérios do Além-mar: o que aprender com o Português, e a literatura do lado de cá e de lá. Fotos do evento.

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27
out
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A crônica de Clarice Müller: Ler é bom

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Ler é bom, por Clarice Müller

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Ler é bom. Ler é tri. Ler é demais. Demais mesmo. Em qualquer sentido que se entenda. E, ao contrário do que se pensa, a web não veio atrapalhar hábitos de leitura, veio é incrementar o processo com doses razoáveis de dispersão e nonsense. A quantidade de contos, crônicas, links, podcasts, vídeos, artigos e textos jornalísticos, artísticos, literários, políticos, espirituais, do raio que o parta que são espargidos sobre nós diariamente é espantosa. Tudo sob forte recomendação, ressalte-se. Produz-se tanto nestes tempos, que o ler quase não abre tempo para o fazer, então a leitura diagonal, de vesgueio, passou a ser a regra, vez que não basta ler, é preciso também curtir, comentar ou compartilhar, coisas que por sua vez provocam novas reações que demandam mais atenção e assim a coisa vai, vai e vai, não me pergunte pra onde. Mas, por isso mesmo, tem horas em que bate uma vontade imperiosa de trocar a banda larga pela bunda larga no sofá, um alentado livro nas mãos para mergulhar, com toda calma, em outros universos, siderais ou existenciais. Segundas-feiras chuvosas são ótimas para isso. Qualquer dia chuvoso é ótimo para isso. O mais difícil é escolher a coisa certa pra entrar de chofre.

Se você estiver cansado da multiplicidade de tudo (múltiplo passou a ser adjetivo saidinho, se deu pra perceber) e preferir adentrar num universo já conhecido, a literatura policial não te deixa na mão. Quem faz carreira no ramo é porque já criou um detetive-policial-investigador com características bem marcantes, num cenário bem definido e todo um jogo de relações familiares e profissionais que fazem com que o dito se torne uma pessoa da casa, por assim dizer. Quando você pega um livro da P. D. James, por exemplo, sabe de antemão que vai encontrar o inspetor-superintendente Adam Dalgliesh fazendo uso de sua inteligência e sensibilidade de poeta (sim, ele é poeta e dos bons) para desvendar os crimes que ocorrem entre jardins e escarpas britânicos, esfera de atuação da Scotland Yard, sempre auxiliado por uma equipe que você também já conhece, de modo que pode auxiliar o inspetor no que for preciso, coisa que o bom leitor tem o dever de fazer. O mesmo se aplica aos livros que envolvem o delegado Guido Brunetti em Veneza, cujo traçado já se tornou familiar para mim, como se lá tivesse estado; Salvo Montalbano, que me diverte dividindo seu tempo entre a busca por criminosos e por tascas onde comer as melhores sardinhas, personagem por sua vez inspirado em Pepe Carvalho, que Vásquez-Montalbán criou para exibir dotes culinários refinadíssimos enquanto desvenda de crimes passionais a políticos, ao contrário do inspetor Maigret, que soluciona mistérios tomando doses impressionantes de calvados desde as primeiras horas do dia, enquanto que Kurt Wallander se esquece de fazer uma coisa e outra mesmo quando a Suécia enregela seus ossos e Botsuana aquece a corpulenta e doce Preciosa Ramotswe, a primeira detetive daquele recanto africano.

Todos esses mundos chegam a mim por meio da leitura paciente, atenta, que nenhuma web me dá, por melhor que seja. Isso quando chove. Nos outros dias, o universo se multiplica mais ainda e expande suas forças sobre o fazer estético, quando então me permito comentários inúteis como este que acabo de escrever para que alguém, em algum lugar, possa ler, curtir, comentar, compartilhar e, de preferência, não deletar. Bom apetite!

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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26
out
12

Vai rolar na Palavraria, neste sábado, 27/10: Bianca Obino convida Ana Santos

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27, sábado, 19h: Bianca Obino convida Ana Santos

Bianca Obino vem ganhando destaque na cena gaúcha há 3 anos com o projeto “Bianca Obino Convida”, dirigido por Felipe Azevedo, numa série de espetáculos seus no formato violão e voz, sempre ao lado de outro artista convidado. Em Março deste ano foi agraciada com a Comenda Lobo da Costa, oferecida pela Sociedade Partenon de Literatura aos artistas destaque na área cultural do RS em 2011. É bacharel em Canto Lírico pela UFRGS. Agrega ao seu currículo diversos cursos, workshops e masterclasses de aperfeiçoamento em cidades do Brasil, Itália e Estados Unidos. Está em pré-produção do seu primeiro CD.

Ana Santos, natural de Porto Alegre, estudou Jornalismo na UFRGS e cursou a Oficina de Criação Literária da PUCRS. Também participou de duas oficinas de escrita criativa na Universidade do Colorado, e tem contos publicados em antologias e nas revistas Bravo!, Cult e Ficções. Publicou O que faltava ao peixe, contos, pela Libretos em 2011.

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