Arquivo de agosto \31\UTC 2011

31
ago
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Brincar seria uma coisa séria?

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Brincar seria uma coisa séria?, por Jaime Medeiros Júnior

 

E tudo parece ter começado mais ou menos assim:

– Ele [numa quase interjeição de contentamento]: é brincadeira o que fizeste!

– Ela: não, não, não é brincadeira, é coisa séria!

– Ele: pois então, brincadeira é uma coisa séria!

 

 

As palavras lhe pareciam ter saltado da boca. Logo percebia ter-se deixado levar pela força da retórica. O pitoresco ali, no entanto, era o gostinho de verdade que parecia se combinar àquelas palavras. Algo no que dissera dizia e dizia bem, dizia coisa com coisa. E tudo parecia estar contido naquele susto, naquele despreparo, com que vieram a ter ali.

Agora se queria sério. E numa tentativa de explicar-se, diz: já notaste o nível de atenção e envolvimento com que as crianças brincam? – Isto, contudo, não parecia suficiente para convencê-la da arguição. E nem mesmo ele parecia tão convencido do que dissera, tão rápido tudo acontecera para que se pudesse ter qualquer certeza que fosse. Certezas são todas feitas de tempo, o tempo certo do certo cair do pé.

Outros chegam, sentam a mesa. O que os obriga a mudarem o rumo da prosa. A noite finda.

[mais tarde em casa]. O engasgo, aquela promessa de verdade, nele inda não se resolvera, não falhara, mas também não se confirmara. Foi remexer seus guardados. Topou com uma citação do Houaiss onde se explicava: o étimo Brinc- advém de vinc- “que segundo Antenor Nascentes deriva-se de brinco, do latim vincùlum,i  [liame, laço, atadura]”. Aqui começava a se confirmar aquilo que ele intuíra [lembrara?]. Brincar parece ter relação com a nossa necessidade de nos sentirmos pertencentes a algo maior, este maior começa já ali no outro ao nosso lado. É um convite a festa, a pôr-se em volta de um aparente nada central, a andar em roda, e estabelecer um espaço de estreitamento das relações, de comunhão. Também parece uma forma de nos organizarmos no universo. Aqui, no mais das vezes, o tempo é cíclico, e o espaço circular. Aqui ninguém perde, ninguém ganha, todos tem o seu lugar na roda. É lembrar os escravos de Jó, as rodas das cantigas de roda, o telefone sem fio.

Então dá-se conta num repente, o universo pacífico da brincadeira está diametralmente oposto ao do jogo, que é o da disputa, o da guerra, o da busca da perfeição no desempenho. O brincar normalmente nos põe em círculo [e mesmo quando o circulo não se destaca numa figura, num desenho, há de se encontrar um círculo na estrutura cíclica da brincadeira, lembremos a amarelinha ou das cinco marias (a que Pessoa chama cinco pedrinhas – clique no link para o poema do menino jesus, talvez uma das brincadeiras mais sérias que já se viu)]; a disputa, o jogo obriga a nos pormos em campos antagônicos, a termos um antagonista, um enfrentamento, portanto precisamos de uma figura como o quadrado ou retângulo que em sua formação tem a dualidade por base. Aqui o tempo costuma nos contar uma história. Não quer se repetir. Estas estruturas simples, circular e quadrangular, constroem visões de mundo também antagônicas. A da guerra e a da paz. O mais interessante é que ambas parecem lidar com a questão da morte e da impermanência, mas enquanto uma parece querer compreender a morte, reservando-lhe um lugar na economia do universo, a outra parece querer negá-la, lutando contra o mal. O outro, nesse caso a morte, torna-se o nosso inimigo.

Talvez, pensa ele, tudo isto possa nos fazer entender porque os alquimistas herdaram dos geômetras o problema da quadratura do círculo e, quem sabe, também lembrar a ela porque brincar é uma coisa das mais sérias que há.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

 

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31
ago
11

Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 01/09: Lançamento do livro Fotojornalismo e Legalidade, de Cláudio Fachel.

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01, quinta, 18h30: Lançamento do livro Fotojornalismo e Legalidade, de Cláudio Fachel.

O livro ‘Fotojornalismo e Legalidade (1961): Última Hora’, de Claudio Fachel, trata da importância da fotografia na cobertura da Campanha da Legalidade. O autor situa os fotógrafos rio-grandenses responsáveis pelo registro da Legalidade, especialmente os profissionais que atuam no jornal Última Hora e na assessoria de Imprensa do Palácio Piratini. Os fatos ocorridos entre os dias 25 de agosto e 13 de setembro de 1961 são apresentados no livro por intermédio das capas, fotografias, manchetes e páginas principais de Última Hora.

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30
ago
11

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina

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Bauman e o soco no hoje, por Roberto Medina

 

“Para que a utopia renasça, é preciso a confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo”


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Viver o hoje é tentar entendê-lo de forma voraz. Preciso ter o mapeamento de onde estou ou penso estar – tarefa hercúlea para moscas tontas que nem sabem se asas possuem ou se o tempo passa indiferente a tudo e a todos. Vamos todos para onde?

Rejeitando o termo de “pós-modernidade”, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman adere ao de “modernidade líquida” para ler o presente. Algo que ele faz com monstruosa mestria. Disseca-nos com a precisão de bisturi.

Por meio de uma entrevista à revista Cult, podemos atingir alguns dos seus princípios de pensamento: “Bauman define modernidade líquida como um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incerteza; a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva do planejamento a longo prazo; e o divórcio e a iminente apartação total entre poder e política.”

Neste momento, concomitante, me defronto com mais dois textos do sociólogo: “Identidade” e “Vida Líquida”. Ambos me chocam pela lucidez.

Com amigos e amigas, discutia sobre partes  dos textos e, então, rumamos para a vida de forma a pensar o que estávamos pensando: a fragilidade humana e a solidão. Trazendo para o real: o medo que temos de ser descartáveis, a ilusão de ser úteis e insubstituíveis…

Anseios tolos para respostas pré-prontas. Basta deixar no microondas dois minutos e servir com fel.

O maior exemplo de querermos estar em contato com o mundo – doce “véu de Maya”… Mostrarmo-nos dinâmicos, bons de cama, sexies, intelectuais, artistas, um sucesso financeiro, bons pais e mães, a excelência da excelência, o comentário dos comentários, o espelho das virtudes, o voto de Minerva, o atleta mundial, o bom amante, o “bon vivant”…

Quem dá conta disso tudo?

Ó deuses de madeira ou de ouro, cadê a “joie de vivre”? Cadê o “me-deixa-ser-burro”?

Por favor, alguém tem um plano seguro, com dados estatísticos e gráficos garantidos, sobre o próximo segundo de vida?

Tantas aspirações para no depois passarmos ao grande lixão onde seremos depositados sem a menor cautela ao nos jogar – se houver mais uma fratura nos nossos ossos já tão fraturados, não haverá importância! Pois o consumo gritante não nos avaliou mais como objetos de desejo: eu não sou tão importante como gostaria.

Exemplo? As correrias para ser pessoa pública, nunca para ser “indivíduo” – ser diferente – tenho de gritar o grito dos outros. Mas onde se perdeu a minha voz?

Eu não me lembro dos meus risos. Lembro o choro. Ele, tão perto dos meus ouvidos. Tão motivador dos soluços. Tão forjador das minhas ansiedades.

Acho que andam brincando comigo!

Será que eu existo?

Não estaria eu no depósito de lixo aí perto de ti, abaixo e acima de tantos outros como eu?

Perdão, tu não tens tempo e desejo para ir averiguar algo que não te interessa!

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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30
ago
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Vai rolar na Palavraria, nesta quarta, 31: lançamento do livro “trabalho e utopia na modernidade”

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31, quarta, 18h: Lançamento do livro Trabalho e utopia na modernidade, de Suzana Albornoz (Editora Movimento).

Na era da indústria, a vida, a ciência e a moral giraram em torno do trabalho. Ao mesmo tempo, foi constante a utopia de uma sociedade que pudesse viver mais do que trabalho. O desenvolvimento da técnica nos tempos modernos, embora feito com sofrimento e exploração, acompanhou-se de rica elaboração de projetos de um mundo melhor, mais organizado, mais feliz, e ao desenvolver-se o maquinismo e a automação, de fato cresceu a possibilidade de dispensar o esforço físico, de tal modo que hoje, com o nível tecnológico alcançado pela humanidade, a jornada de trabalho de seis horas situa-se na vizinhança do real.

No entanto, continua irrealizado o sonho do trabalho prazeroso, como o do artista apaixonado por sua arte; e continua vivo o sonho com aquela realidade onde o esforço pela sobrevivência se conserve dentro de limite digno, quando os homens encontram mais tempo para o repouso, a reflexão, o movimento, o lazer, a criação, o pensamento, a convivência, a descoberta, a liberdade, enfim, tudo o que é humano e transcende a produção material.

Sendo assim, importa não esquecer as sugestões contidas nas obras dos escritores de utopias, tão presentes nos tempos modernos.

Em direção dos sonhos de reforma social, a viagem deste livro começa pela Utopia de Thomas More, na Inglaterra do século XVI; passa pela Cidade do Sol de Tommaso Campanella, na Itália do século XVII; continua pela visita às sugestões encontradas nas Considerações sobre o governo da Polônia, de Jean-Jacques Rousseau, na Europa iluminista do século XVIII; detém-se, a seguir, em O novo mundo industrial e societário de Charles Fourier, e vai terminar com o manifesto O direito à preguiça, de Paul Lafargue – esses dois últimos, na França do século XIX. Escolhidos entre os clássicos das utopias modernas, More, Campanella, Rousseau, Fourier, Lafargue, cada um em seu contexto e com suas características especiais – estes, mais políticos, aqueles, mais filosóficos, todos alvos de controvérsia –, esses cinco autores são alguns poucos nomes escolhidos como exemplos, mas são autores exemplares, entre os melhores sonhadores de novas realidades. Espera-se que a leitura de suas páginas polêmicas reavive a capacidade de imaginação, necessária para a inovação e o aperfeiçoamento das sociedades concretas.

 

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29
ago
11

Programação da semana de 29 de agosto a 03 de setembro

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31, quarta, 18h: Lançamento do livro Trabalho e utopia na modernidade, de Suzana Albornoz (Editora Movimento).

Na era da indústria, a vida, a ciência e a moral giraram em torno do trabalho. Ao mesmo tempo, foi constante a utopia de uma sociedade que pudesse viver mais do que trabalho. O desenvolvimento da técnica nos tempos modernos, embora feito com sofrimento e exploração, acompanhou-se de rica elaboração de projetos de um mundo melhor, mais organizado, mais feliz, e ao desenvolver-se o maquinismo e a automação, de fato cresceu a possibilidade de dispensar o esforço físico, de tal modo que hoje, com o nível tecnológico alcançado pela humanidade, a jornada de trabalho de seis horas situa-se na vizinhança do real.

No entanto, continua irrealizado o sonho do trabalho prazeroso, como o do artista apaixonado por sua arte; e continua vivo o sonho com aquela realidade onde o esforço pela sobrevivência se conserve dentro de limite digno, quando os homens encontram mais tempo para o repouso, a reflexão, o movimento, o lazer, a criação, o pensamento, a convivência, a descoberta, a liberdade, enfim, tudo o que é humano e transcende a produção material.

Sendo assim, importa não esquecer as sugestões contidas nas obras dos escritores de utopias, tão presentes nos tempos modernos.

Em direção dos sonhos de reforma social, a viagem deste livro começa pela Utopia de Thomas More, na Inglaterra do século XVI; passa pela Cidade do Sol de Tommaso Campanella, na Itália do século XVII; continua pela visita às sugestões encontradas nas Considerações sobre o governo da Polônia, de Jean-Jacques Rousseau, na Europa iluminista do século XVIII; detém-se, a seguir, em O novo mundo industrial e societário de Charles Fourier, e vai terminar com o manifesto O direito à preguiça, de Paul Lafargue – esses dois últimos, na França do século XIX. Escolhidos entre os clássicos das utopias modernas, More, Campanella, Rousseau, Fourier, Lafargue, cada um em seu contexto e com suas características especiais – estes, mais políticos, aqueles, mais filosóficos, todos alvos de controvérsia –, esses cinco autores são alguns poucos nomes escolhidos como exemplos, mas são autores exemplares, entre os melhores sonhadores de novas realidades. Espera-se que a leitura de suas páginas polêmicas reavive a capacidade de imaginação, necessária para a inovação e o aperfeiçoamento das sociedades concretas.

 

01, quinta, 18h30: Lançamento do livro Fotojornalismo e Legalidade, de Cláudio Fachel.

O livro ‘Fotojornalismo e Legalidade (1961): Última Hora’, de Claudio Fachel, trata da importância da fotografia na cobertura da Campanha da Legalidade. O autor situa os fotógrafos rio-grandenses responsáveis pelo registro da Legalidade, especialmente os profissionais que atuam no jornal Última Hora e na assessoria de Imprensa do Palácio Piratini. Os fatos ocorridos entre os dias 25 de agosto e 13 de setembro de 1961 são apresentados no livro por intermédio das capas, fotografias, manchetes e páginas principais de Última Hora.

 

03, sábado, 11h: Lançamento do livro Bric da Redenção – domingos, arte, cultura e chimarrão, de Taís Gomes

 

 

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03, sábado, 19h: Pocket musical com o duo Alexandre Starosta (violino) e Davi Moreira (violão) – música instrumental clássica e popular.

Alexandre Starosta | Iniciou os estudos de violino aos quatro anos de idade, pelo método Suzuki. Na sequência, participou do Projeto Prelúdio, da UFRGS. Foi aluno de Fredi Gerling e Marcello Guerchfeld, e se graduou como bacharel em Violino, pelo Instituto de Artes da UFRGS, em 2001. Tem se apresentado em recitais em Porto Alegre e no interior do RS, com repertório para violino e piano. Mais recentemente, passou a tocar em duo com o violonista Davi Moreira, com repertório erudito e popular para esta formação. Atua profissionalmente nos primeiros violinos da Orquestra de Câmara Theatro São Pedro, em Porto Alegre, apresentando-se como solista eventualmente. É violinista efetivo também da Orquestra Filarmônica da PUCRS. Desde 2009, é professor de violino no Projeto “TIM Música nas Escolas”, e também leciona na Escola Piá-Piano, na Capital.

Davi Moreira| É Bacharel em Violão pela UFRGS, sob orientação de Daniel Wolff. Participou de cursos de Extensão Universitária com Helio Delmiro, Guinga, Abel Carlevaro (Uruguai), entre outros. Fez workshop com Paulo Belinati. Tem se apresentado juntamente com o violinista Alexandre Starosta no restaurante Flor de Maçã, no Santander Cultural, no Theatro São Pedro e no Centro Cultural Norte-Americano, em Porto Alegre. Como solista, se apresentou no Museu Joaquim José Felizardo, na Capital. Tem participado de festivais em várias cidades do Rio Grande do Sul, e de gravações com músicos e grupos, como acompanhador, arranjador e compositor. É professor de violão (erudito e popular) e guitarra elétrica na Escola Tio Zequinha e em aulas particulares.

Uma amostra do som de Alexandre e Davi: Primavera portenha, de Astor Piazzola

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29
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11

Aconteceu na Palavraria, neste sábado, 27/08: atividades da Associação Jovem Leitor

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A Associação Jovem Leitor promoveu na Palavraria, neste sábado, um bate-papo sobre leitura. Fotos do evento.

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27
ago
11

Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 26/08: Teorema 18

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Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 26, o lançamento da Revista Teorema 18. Fotos do evento.

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