Arquivo para a categoria 'Crônicas da Palavraria'

24
mai
12

A crônica de Ademir Furtado: Um caso de idolatria

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Um caso de idolatria, por Ademir Furtado

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Eu era um garoto que não amava os Beatles e mal conhecia os Rolling Stones.  Elvis Presley não passava de um nome que o rádio anunciava de vez em quando, e um ator de filmes de matinê. Uma infância imune à influência dos ídolos daquela época. Até que um dia, no ano de 1972, eu desperdiçava o tempo na frente de um aparelho de televisão, entre os adultos que assistiam a um festival de música popular brasileira. A programação, sem muita graça para um impúbere, prendia apenas pelo hábito de esperar o sono diante de um totem que ainda simulava um pouco de magia. Mas, uma voz que soava onipresente anunciou o próximo participante. E um magricelo saltou no palco, com um microfone na mão. Vestido de preto, calça e jaqueta de couro, a gola levantada, e um topete atrevido avançava por cima da testa. O visual lembrava muito bem aquele galã que cantava e rebolava, e fazia as vezes de herói no cinema das tardes de domingo. Uma apresentação bem diferente dos demais artistas que se uniformizavam dentro de calças de boca larga e cabeleira caída sobre os ombros. Mas não só a roupa. A música era diferente. Os primeiros versos da letra, num inglês impostado, pareciam delírio de um doido a repetir incansável uma súplica diante da platéia. E o corpo todo se contorcia ao compasso da música, à semelhança de Elvis Presley nos filmes da sessão da tarde. Em seguida da introdução, emendava um trecho em português, num outro ritmo marcado por uma sanfona nordestina, que eu conhecia muito bem de tanto ouvir as melodias de Luiz Gonzaga. E o topetudo afirmava, como um pedido de desculpas, que não queria provar nada, não tinha nada pra dizer, também. Ele só queria cantar um rockzinho antigo, que não tinha perigo de assustar ninguém. Anos mais tarde, gaguejando algumas palavras de inglês, aprendi a cantar o refrão:

let me sing, let me sing,

let me sing my rock’n roll,

let me sing, let me sing,

let me sing my blues and go.

Na inocência de pré-adolescente, eu não atinava no significado daquela mistura de rock com baião. E também nem desconfiei que começava ali naquele momento o meu primeiro, e quase único, caso de idolatria.

E foi com um sentimento de reverência e passadismo que quebrei um jejum cinematográfico de vários meses para assistir ao filme Raul – o início, o fim, e o meio. Desnecessário dizer que não dei a mínima importância para questões formais da obra. Não sei avaliar se o filme é bom ou ruim do ponto de vista estético. E não só pelo fato de não ser um crítico de cinema. É que para um fã saudosista a figura de Raul Seixas transcende qualquer pretensão racional. Como um devoto fascinado, prostrei-me mais uma vez diante de uma tela para reverenciar um ídolo que virou mito e deixou sua marca de carimbador maluco na música brasileira.

Com a sucessão dos quatros eu voltei aos meus 13 anos, quando, em nova aparição na TV, Raul executava uma performance debochada. Dessa vez, um personagem, entediado com a vida de classe média, ironizava o coro dos deslumbrados com a ilusão de progresso do regime militar. Já morava em Ipanema, tinha comprado um Corcel 73, e pelas graças do Senhor podia desfrutar do domingo para ir com a família ao jardim zoológico dar pipoca aos macacos. Era o ouro dos tolos do milagre brasileiro.  Mas uma metamorfose ambulante, que sabia ser a mosca na sopa de muita gente, não podia parar na pista, pois sabia o perigo de ser atropelado. E numa sociedade alternativa com o futuro mago Paulo Coelho mergulhou nas drogas e na cultura indiana; andou pelos quatro cantos do mundo anunciando a chegada do Novo Aeon, e se tornou a luz das estrelas, o início o fim e o meio para uma geração. Durante um breve período, Raul Seixas brilhou incontestável como a vela que acende e a força da imaginação da música brasileira. Mas toda fonte luminosa um dia se apaga.

Aqui, mais uma vez, a trajetória do maluco beleza se aproxima da do pai do Rock, que ele tentava imitar no início da carreira. Um dos momentos mais impressionantes do documentário é a projeção de uma cena de Balada Sangrenta, estrelado por Esvis Presley, numa montagem em que as imagens dos dois roqueiros se confundem na parede de um edifício.

Nos anos 80, uma nova realidade brasileira demandava outras maluquices, e o cowboy fora da lei, com a saúde debilitada pelas drogas e pela bebida, foi jogado pra fora do trem. No final da década, por iniciativa de um novo amigo, Marcelo Nova, tentou outra vez retomar a missão de carpinteiro do universo. Mas era tarde. Apenas um disco gravado e alguns shows pelo Brasil serviram para antecipar o que os médicos já haviam diagnosticado poucos anos antes: o fim estava chamando o princípio pra poderem se encontrar.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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17
mai
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior.: Pequena anotação após ler Augusto dos Anjos

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Pequena anotação após ler Augusto dos Anjos, por Jaime Medeiros Júnior

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O que há de se buscar num poeta? Nada mais do que aquilo que nele se ergue como belo. Creio que de todo perdemos quando, como modernos, nos acostumamos a medir o mundo com o acento futurístico do novo. Tendemos a escorar o entendimento de tudo o que por ventura surja das páginas lidas em uma qualquer linha evolutiva. Criamos o limite a ser ultrapassado [um mito?], não se devendo tomar nada do que ficou atrás. Vivemos o modernocentrismo do verso.

Reli Augusto dos Anjos. Foi bem bom relê-lo. Pois meio acomodado à batida dos modernos, estava algo satisfeito de roer o meu ossinho feito de essências e medulas. Augusto parece habitar um grande entroncamento de estilos, pois que apresenta rompantes de moderno encrustado em seus poemas, como:

Caía um ar danado de doença

Sobre a cara geral dos edifícios!

 

Parece, contudo, que sua temática funda-se bem mais em temas simbolistas, como:

em tudo, igual a Goethe, reconheço

o império da substância universal.

 

Poesia que sempre está a metamorfosear-se no entrechoque dos opostos e na efemeridade das coisas, isso tudo com um acento lúgubre – há algo de barroco no nosso poeta?

Como há de se dormir com este barulho? E aqui o poeta, que não fora educado no gosto moderno pelo sintético, acabou por carregar nas tintas. Grandes doses de adjetivos e sonoridades esdrúxulas, que parecem aproxima-lo do povo [um dos nossos poucos best-sellers em poesia], que parece sentir para além do dito, o que guarda de ribombos e ventanias entretecidos no aparente abstruso de seus versos.

Paro aqui e penso. Talvez o melhor que possa tirar da leitura de Augusto dos Anjos neste momento é o poder tomá-lo como exemplo de que a nossa receita moderna de síntese não deva ser considerada como a única válida. E que talvez devêssemos nos desacostumar com entenderes postos sobre linhas evolutivas. E nos aproximar mais de um entendimento baseado no movimento ondulante entre opostos; do exagero a síntese, da síntese ao exagero.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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14
mai
12

A crônica de Emir Ross: O maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos

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O maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos, por Emir Ross

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Um amigo me disse que não se faz literatura sem público, pois a literatura só é literatura quando dialoga com os leitores.

Eu sou o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos. Depois explico.

Estive em Buenos Aires para a Feira do Livro. De Buenos Aires, no caso. Jurei que não iria para comprar livros e sim para freqüentar as mesas de debates. Enganei-me, comprei alguns. Mas participei das conversas. Em meio a tanta programação que brotava de salas e palcos e esquinas, parei no Diálogo de Escritores Latinoamericanos. Vários dias e várias mesas discutindo o que se fazia no continente de língua espanhola. Eles têm maior facilidade de diálogo e troca de experiências. Assim como troca de obras. A língua aproxima. Mas, para os autores brasileiros, é uma barreira. A mesma que surge entre eu e minhas publicações.

Os debates desse Diálogo giravam em torno dos novos. E a base para se saber quem são os novos eram os nomes que a Revista Granta publicava cada vez em quando. A Granta recebe inscrições e depois elege os vinte ou trinta futuros grandes escritores em cada língua. Também fizeram a versão portuguesa. A partir de então, a lista entra nos catálogos de mais procurados e por aí vai.

Não me inscrevi. É uma das razões pelas quais continuarei um escritor sem obra.

Meu primeiro prêmio literário veio em 1993. Eu tinha dezessete anos. De lá pra cá, recebi praticamente todos os importantes prêmios literários nacionais. Para escritores sem obra. Para aqueles que devem inscrever-se sob pseudônimo. Até 2009 eu contabilizava cerca de vinte prêmios. Parei de contar após esse número. Certamente hoje passa dos trinta. Repito, são prêmios importantes, reconhecidos e muito disputados.

Ao chegar da Feira de Buenos Aires, uma notícia no meu email.

Fui o primeiro colocado no Prêmio Cataratas de Contos, de Foz do Iguaçu. Era um dos poucos que eu não havia recebido ainda.

Mas não escrevo aqui para mostrar como sou foda. Escrevo para dizer que não me inscrevi na escolha da Revista Granta. Escrevo para dizer que editora alguma ainda aceitou me publicar. Embora eu tenha mandado originais para diversas. Embora os críticos tenham me conferido cerca de trinta importantes premiações. Claro, eu inscrevia-me sob pseudônimo. Eu sou um escritor sem leitores. Um escritor sem obra.

Daqui a cem anos serei motivo de estudo. Algum historiador descobrirá meus originais em arquivos perdidos e fará o que fizeram com Qorpo Santo.

O título: o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos.

Serei eu.

Espero que editor algum leia este texto. Ele pode acabar com o meu futuro. Assim como acabaria com a grande descoberta de um anônimo e louco historiador do século XXII.

Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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13
mai
12

A crônica de Rônei Rocha: Pasárgada

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Pasárgada, por Rônei Rocha

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Japão foi a minha Pasárgada enquanto eu ia entrando na adolescência. Assustado com o homem, eu acreditava que aquela pequena ilha era a prova de que o mundo podia ser melhor.

O leitor talvez imagine que eu fosse como costumam ser os adolescentes apaixonados, um profundo e tendencioso conhecedor do objeto de sua paixão. Pois apesar de ser um gordo rato de biblioteca que traçava o que aparecesse, sobre o Japão, estranhamente, não lia nem uma vírgula.

Eu tinha a minha fantasia, e era o que bastava. Lá os políticos se suicidavam de vergonha pela honra maculada? Era disso que precisávamos no Brasil, nos envergonhar e suicidar os nossos políticos.

Fiquei revoltado e até me sentindo traído quando descobri que eles não eram assim tão diferentes de nós, ocidentais. Mas depois fui amadurecendo e superando o rancor, tanto que recentemente até desisti de construir uma máquina do tempo para poder matar japoneses em Iwo Jima.

Lembro disso com frequência quando atendo pais que vem me consultar antes de trazer os seus filhos. Num exemplo fictício bastante comum, eles suspeitam que o filho seja um psicopata, um bon-vivant, pois não assume nenhuma responsabilidade, não quer saber de estudar nem de trabalhar. Aguardam apenas um sinal meu para ministrarem a tal da surra que fará com que se endireite, ou irão desistir dele. Fico preparado para atender um lobo mau, e eis que surge um porquinho assustado, com uma depressão crônica encravada até o último fio de cabelo.

Em outra situação típica, recebo uma família que chora por estar perdendo o seu filho para, por certo, uma depressão, que o levou a procurar refúgio nas drogas. Quanto às escorregadas na conduta (mentiras, furtos, violência), os pais não tem dúvida: “São as más companhias, doutor. Ele é um bom rapaz, só que se perdeu. O senhor vai ver quando ele vier consultar!”. Ele vem e eu vejo, como já suspeitava, que a péssima companhia é ele, e acho que quem está perdido sou eu. Lembro que posso invocar a São Lucas, o santo padroeiro dos médicos, mas penso melhor e resolvo encaminhá-lo para um especialista em pacientes assim, o Dr. Nascimento (que por ser Capitão tem o estofo que se requer nesses casos).

Mas o que leva uma família a escolher entre um diagnóstico ou outro? Não se trata de qual é o menos grave; a questão é fugir para uma fantasia, por isso essas famílias não buscam informações sobre sociopatia ou depressão. Na fantasia dos primeiros, ser um psicopata é algo menos grave, coisa que uns croques ou palmadas irão resolver. Assim tentam negar a depressão, que, como um buraco negro, suga energia de todos os que estão a sua volta. Já a segunda família se refugia da culpa e do medo responsabilizando a terceiros e fantasiando que um antidepressivo-poção mágica vai dar um novo (e, desta vez, bom) caráter ao filho.

Às vezes, fantasias são muito saudáveis, e até um Japão pode ajudar a salvar a nossa pele. O que não pode acontecer é ficarmos prisioneiros, morando num cubículo de fantasia, onde não é raro pagarmos um aluguel de resort, em troca de uma nada doce ilusão.

Rônei Rocha é escritor e médico psiquiatra de Uruguaiana – RS. Publicou Umas e outras (2011) e A pau e corda (2012), ambos pela Editora Proa.

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06
mai
12

A crônica de Rônei Rocha: Auto-ajuda

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Auto-ajuda, por Rônei Rocha

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Até hoje, eu nunca atendi um apaixonado. Pelo menos não um que esteja sendo correspondido em sua paixão. E não é um fenômeno restrito a saúde mental; clínicos gerais também notam essa estranha ausência nos seus consultórios. Pode-se ponderar que pessoas felizes adoecem menos, mas eu não estou dizendo que apaixonados sejam felizes, tampouco mais saudáveis que o restante da população.

Quando nos apaixonamos, somos atropelados e vencidos por nossos sentimentos, ganhando assim aquela razão de viver, a desculpa para tudo, um combustível invejável e o perdão de nós mesmos.

Quem precisa de um médico?

Um estado de espírito tão especial, que só Chicos e Nerudas conseguem descrever plenamente, mas que a enxerida da medicina, como de costume, tinha que meter o bedelho e dissecar.

Lá estão as nossas paixões, numa minguada e fria classificação, catalogadas como stress. O pior é que, por mais estraga prazer que possa ser, não há como contrapor, pois qualquer mudança que altere o nosso funcionamento habitual, não importando se para melhor ou para pior, exigindo de nós uma nova adaptação, caracteriza o stress.

A fina ironia é que a mesma capacidade impressionante de adaptação, salvadora e vital em tantas situações difíceis que precisamos enfrentar, é, também, o carrasco da paixão. Ela é capaz de fazer, não só com que eu me acostume com um câncer, como, em pouco tempo, nos torna íntimos; e é meu câncer isso, meu câncer aquilo, o meu é maior que o teu, etc.

Não por coincidência, todas as pesquisas que já foram feitas a respeito de mudanças estressantes na nossa vida e o tempo que se leva para acostumar-se com elas, apontam para o mesmo prazo: dois anos. Tanto para nos ambientarmos a uma nova cidade, um novo peso, uma nova condição (paternidade, viuvez, riqueza) como para que se apaguem as chamas de uma paixão; lá estão os tais dois anos.

Quer dizer então que estamos condenados à triste sina de buscar eternamente novos objetos de paixão? Um novo hobby, um novo trabalho, um novo corpo mais novo, pois todos virão com o prazo de validade estampado em uma lápide? Não! Existe uma saída. Foi descoberta por cientistas da Groenlândia enquanto analisavam o comportamento de pinguins felizes; é muito complicada, antinatural, extremamente trabalhosa, mas de resultados comprovadamente não garantidos.

Consiste em fugir da sua zona de conforto e entregar-se à caça do stress, buscando mudanças dentro do mesmo; sentindo sempre algo novo, de preferência que faça a adrenalina ferver, nós conseguimos ressuscitar a paixão. Então mexa-se. Adote um pitbull para fazer companhia ao seu poodle; diga não a sua sogra; esqueça os bicos de papagaio, dispense o peão e dome você mesmo os seus potros; ande de táxi em Porto Alegre; seja voluntário num asilo; declare ao seu amigo que você ama ele e a sua mulher tudo o que você realmente pensa sobre ela; comece a escrever a sua biografia — a verdadeira. Não há nada que se compare; sentir o sangue quente correndo em nossas veias, ou fora delas, uma paixão não tem preço.

Rônei Rocha é médico psiquiatra de Uruguaiana – RS.

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05
mai
12

A crônica de Moacyr Godoy Moreira: O aconchego da lembrança

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O aconchego da lembrança, por Moacyr Godoy Moreira

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Em Salvador, ao adentrar as instalações reservadas a mim no Íbis e verificar que tudo estava em seu lugar, como em qualquer outro quarto da rede de hotéis, fui tomado de uma paz inexplicável. Um dia chuvoso e abafado, um trânsito que não deixava nada a desejar ao de São Paulo a infestar os caminhos da capital baiana e um cansaço brutal, comum na reta final de um ano atarefado que se encerra, deixaram-me impaciente, ansioso, aborrecido de verdade. Mas ao deixar as malas, tomar um banho, recostar-me à cama para olhar os diversos e multilíngues canais, fui me sentindo melhor e por incrível que possa parecer, com a sensação de estar em casa.

Já havia acontecido, há muito, no Mc Donald’s. Numa viagem à Europa, num longínquo e gélido dezembro, num dia em que tudo dera errado – o museu que planejara visitar estava fechado, o hotel em que ficaria não existia mais, além de ter perdido um trem – entrei no Mc Donald’s. Depois de comprar o lanche e me sentar, fui sendo invadido por uma tranquilidade inexplicável, fui serenando o pensamento e acredito que a disposição das mesas, as cores e símbolos característicos e o cheiro inconfundível das batatas fritas, me levaram diretamente para casa.

Defronte à janela, uma infinidade de edifícios que me lembraram a Avenida Paulista transportaram-me para um lugar familiar. Lembrou-me a loja na esquina da Joaquim Eugênio de Lima, onde meu pai nos levava raramente, uma verdadeira aventura – hoje há lanchonetes do gigantesco M amarelo em qualquer esquina. Quando eu era menino, não. E acho até que este Mc Donald’s da Paulista foi o primeiro da cidade, um lugar austero, sem muito a cara das novas lojas que têm até playground, salas para aniversário e estátuas do Ronald Mc Donald’s em tamanho natural. A loja de Viena era também sóbria, repleta de executivos em suas exíguas horas de almoço, gente de terno e gravata misturada a turistas perdidos ali como eu.

Pois foi o que senti ontem no Íbis: estava em casa. E por estar em casa, fiquei tranquilo e quase satisfeito. Impressionante como em tempos cada vez mais impessoais, justamente uma lanchonete e um hotel cujos padrões fazem de seus estabelecimentos lugares invariáveis e sem graça, possam nos remeter justamente à familiaridade do lar, o aconchego de estar amparado e cercado de signos conhecidos. Na verdade, esta familiaridade vem de reconhecermos, nestes lugares, sinais de outros lugares como aqueles, que, na companhia de pessoas queridas, vivenciamos momentos de felicidade. A impessoalidade do Mc Donald’s e das redes de hotéis pré-fabricados nos conduz diretamente a lugares e momentos em que, cercados por aquele cenário invariável, sem qualquer pitada de criatividade, estivemos com pessoas que nos mostraram que a única razão de estar ali era justamente a alegria inestimável de sua companhia.

A desumanidade do cenário nos leva justamente ao que há de mais humano: o aconchego da lembrança.

11.12.2010

Moacyr Godoy Moreira é escritor, redator de teatro, tradutor e médico. Publica semanalmente crônicas e resenhas na seção “Arte do Tempo” do site www.agenciacartamaior.com.br. Publicou, pela Ateliê Editorial, os livros de crônicas Lâmina do Tempo, República das Bicicletas e Ruídos Urbanos.

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04
mai
12

Fragmentos da eternidade, por Leila de Souza Teixeira: Alguns aspectos do conto

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 Alguns aspectos do conto, por Leila de Souza Teixeira

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Júlio Cortázar, no capítulo “Alguns aspectos do conto”, do livro “Valise de Cronópio”, afirma que se dedica à elaboração de contos chamados fantásticos, mas que pode apontar elementos que são comuns a todo bom conto e que concedem a este o caráter de obra de arte.

Ao tentar demonstrar a peculiaridade do conto enquanto gênero literário, compara-o ao romance. Este seria como um filme, uma ordem aberta. Aquele seria como uma fotografia, uma ordem fechada, na qual o contista (fotógrafo) deve escolher um acontecimento (imagem) significativo, que funcione como uma espécie de abertura, um fermento que leva o leitor (espectador) para muito além do argumento do conto (fotografia). Menciona outro escritor argentino e, ainda comparando o conto ao romance, diz que se entendermos o embate do texto com o leitor como uma luta de boxe, o romance ganha o leitor por pontos, e o conto ganha por knock out.

Quando Cortázar faz analogia do conto com a fotografia, pode estar adiantando seu entendimento sobre a importância do TEMA para um bom conto. Já quando relaciona o conto ao knock out, talvez, esteja antecipando outros dois elementos que considera imprescindíveis para o bom conto: a INTENSIDADE e a TENSÃO.

No que diz respeito ao tema, Cortázar afirma que um tema é significativo quando possibilita a abertura do individual e do circunscrito para a essência da natureza humana. O conto perdurável carrega a semente de uma árvore gigantesca: a árvore crescerá dentro do autor e do leitor e deixará sua marca na memória de ambos. Entretanto, Cortázar realiza duas ressalvas à expressão “tema significativo”. Em primeiro lugar, lembra que não existem temas absolutamente significativos, nem absolutamente insignificantes. Um tema que pode arrebatar um autor, pode ser indiferente para outro. O mesmo ocorre com os leitores: determinado tema de um conto pode significar muito para um, e nada para outro leitor. Em segundo lugar, defende que não há temas bons ou ruins, mas, sim, tratamento adequado ou inadequado do tema.

Para que seja dado o tratamento adequado ao tema, para que o conto consiga funcionar como uma ponte entre o significado que o autor visualizou e a importância que o leitor dará a tal significado, Cortázar entende imprescindível o ofício de escritor. Por meio do ofício do escritor, o autor capturará o leitor com o conto, deixará o leitor alheio a tudo que o cerca durante o tempo do conto e, depois, colocará o leitor em contato com o ambiente de uma maneira nova, mais profunda e mais bela. O “sequestro”do leitor só será efetivado mediante um estilo baseado na intensidade e na tensão.

Cortázar define a intensidade como a eliminação de todas as ideias e a substração de todos os recheios, que o romance suporta e até necessita. A eliminação de todas as fases de transição próprias do romance. A tensão seria uma variante da intensidade, que ocorre na maneira pela qual o autor leva o leitor aproximando este lentamente ao que conta.

Trabalhando com um campo reduzido, com espaço e tempo comprimidos, e eliminando tudo o que fosse supérfluo, o autor escreveria um bom conto e venceria o leitor por knock out.

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Leila de Souza Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

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30
abr
12

A crônica de Emir Ross: A felicidade e José Saramago

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A felicidade e José Saramago, por Emir Ross

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A Globonews  reprisou esses dias uma entrevista do Edney Silvestre com o José Saramago. O Saramago é incrível, embora suas palavras, enquanto as fala, não confiram tanta credibilidade.

Mas quem hoje em dia preocupa-se com credibilidade. O que ele fala é ainda mais bonito do que escreve. Embora menos genial.

Saramago publicou o primeiro sucesso, Memorial do Convento, aos 60 anos de idade. Trabalhou a maior parte da vida como mecânico. Algo um pouco distante da literatura. Comentou que, hoje (naquele dia, no caso) não saberia consertar um carro, porque ele já não era o mesmo, mas, principalmente, porque os carros já não são os mesmos. Felizmente, para nós, depois que ele começou a escrever, a literatura também não é a mesma.

O que mais chamou-me atenção foi o fato de Saramago dizer que o Prêmio Nobel que recebera não tinha grande importância na sua vida. Era um grande prêmio, mas comparado à grandeza do universo, isso era muito pequeno. Quando o recebeu, em seu discurso, disse que o homem mais sábio que conhecera fora o avô, que não sabia ler nem escrever.

Segundo o escritor, a infância foi a principal parte da sua vida: a parte em que ele a sentiu mais intensamente. José Saramago nasceu e passou os primeiros anos em Azinhaga, uma aldeia em Portugal, até mudar-se para Lisboa com a família; mas nas férias, sempre voltava para a terra natal, onde tirava os sapatos e encontrava os (verdadeiros) amigos, a sua gente. Só para lembrar, nos anos em que o único escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel, José Saramago, sentiu a vida roçar sua pele na forma mais completa, ele era pobre, filho de camponeses e nada conhecia do mundo além do lugar onde vivia.

Talvez esta seja a principal lição. Quanto menos conhecemos as coisas, mais estamos próximos da felicidade.


Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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19
abr
12

A crônica de Ademir Furtado: A era do spam

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A era do spam, por Ademir Furtado

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No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua da Praia, em Porto Alegre, um homem enfiado numa roupa escura, com uma Bíblia na mão, proclama, veemente, o fim dos tempos, e a necessidade de remissão de todos os pecadores.  Os passantes, no entanto, prosseguem seus rumos, impassíveis frente à iminência apocalíptica.

Rivalizando com o pregador, um menino entrega prospectos anunciando empréstimo fácil, sem comprovação de renda, com juros baixos. Num espaço limitado pela torrente de pedestres aglomera-se uma turma de oferentes com notícias de boas novas, uma solução para algum problema. Uma mulher veste um cartaz indicando a compra de ouro; o cego com bilhetes da Mega Sena já preenchidos. É uma lista interminável de dádivas tentadoras, ofertas imperdíveis. Esses arautos da sorte cumprem como autômatos uma tarefa, indiferentes à indiferença dos outros. Não se preocupam muito que suas palavras ou folhetos sejam levados pelo vento, ou jogados na lixeira logo adiante.

A esquina é democrática, aceita, resignada, variadas manifestações e promessas de salvação, seja do espírito, ou da conta bancária.  Mas também permite que se passe insensível a tudo isso. Então, um fenômeno torna-se evidente: há um excesso de mensagens no ar e uma carência gritante de respostas. É provável que aqueles transeuntes da Rua da Praia tenham outros motivos de pressa, outros valores a serem resguardados, e por isso não se deixam cair nas tentações da esquina. Sim, eles também estão correndo em direção a um público, a quem vão fazer um comunicado surpreendente. Não importa que suas vozes também se percam na balbúrdia. Palavras berradas ao vento, em lugares públicos, no meio da multidão, hão de atingir ouvidos dispersos.

Os personagens da esquina ainda praticam a técnica rudimentar, quase abandonada hoje em dia, de enfrentar cara a cara seus alvos, talvez pela convicção de que o benefício que trazem é vital.  Mas a necessidade mais premente do indivíduo contemporâneo é mandar seu recado. E a tecnologia, que não é mais do que uma resposta às ansiedades humanas, evoluiu bastante para simplificar a vida e evitar esforços dispensáveis. Basta ter em casa um computador com acesso à internet para se economizar tempo e as cordas vocais, emitindo mensagens aos milhares, entupindo as caixas de entradas de correios eletrônicos, mundo afora.  E ainda se poupa do cansaço que o contato mais íntimo eventualmente exige. Desnecessário empenhar-se no sucesso das mensagens enviadas.  Sempre haverá um receptor ocioso. Resposta? Não carece. O importante é projetar-se, fazer barulho, registrar uma existência, ainda que ínfima. A conquista de um espaço no mundo passa pela manifestação de algo original, mesmo que a originalidade tenha virado uma obsessão coletiva, e se tornado um clichê. E mesmo que a excentricidade não chame mais a atenção de ninguém, afinal de contas, os outros também estão ocupados com sua própria singularidade. As conquistas na área de valores sociais proporcionaram a cada cidadão o direito de falar o que bem entende, mas também o de ouvir apenas o que interessa. Os canais de emissão se multiplicam, mas os de recepção estão bloqueados. Ou, no máximo, permitem comentários com moderação. O spam é o modelo da comunicação na sociedade atual. E o que mais caracteriza as vivências interpessoais é essa gritaria sem fim nas esquinas democráticas.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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16
abr
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A crônica de Emir Ross: Rindo à toa

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Rindo à toa, por Emir Ross

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Os brasileiros estão rindo à toa. E isso não deveria ser novidade. É só mais uma coisa à toa que faz-se por aqui. Nos próximos anos bateremos nosso próprio recorde. Faremos duas coisas inéditas à toa. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Que muitos ignorantemente andam a chamar Olimpíadas. Aqui sequer se aprendeu a diferença entre singular e plural e se quer organizar dois eventos desse porte. Brasileiro é tão apaixonado por esporte que quer organizar todas as Olimpíadas até o fim da existência. Não basta apenas organizar ‘a Olimpíada’ de 2016. Quere-se todas, no plural.

Basta se reparar nas ruas e percebe-se o sorriso nos lábios das pessoas. Sim, nos lábios, afinal os dentes foram dar uma volta à toa. E não retornaram. Aqui se ama incondicionalmente. Até se encontrar um amor mais forte. Então o antigo e incondicional vira uma história à toa. Aqui se trabalha imparcialmente, até o capataz dar as costas, que é a senha para ficar-se à toa. Elege-se políticos que irão mudar a história do país em três meses. Depois, se percebe que deixamo-nos levar à toa.

Tolice.

Há coisas tão à toa, mas tão à toa, que deixam de ser à toa.

Aqui, quando lotam os estacionamentos de festas ou espetáculos, os guardadores de carros invadem as ruas e cobram duas vezes mais que o estacionamento. É pagar ou correr o risco que gastar mais no dia seguinte. Em geral não é um risco. É uma certeza.

Aqui, o nosso programa de televisão favorito acontece nos domingos à tarde. Ele é tão à toa que o apresentador já pediu demissão inúmeras vezes por não aguentar mais fazer programa tão idiota. Não foi aceita. Então ele praticamente pedia para ser demitido no ar, ao vivo, com idiotices tão grandes quanto seu tamanho avantajado. Resultado: audiência aumentou.

Eu também gostaria de estar rindo à toa. Mas ainda não consigo. Ainda busco motivos para rir. E não os tenho encontrado. Talvez os esteja procurando em lugar errado. Talvez deva deixar-me levar pelas Olimpíadas que acontecerão aqui pelo resto da existência ou pelas piadas dos domingos à tarde. O problema é que sempre chega a segunda. E quando acordo cedo na segunda-feira para começar uma semana cheia de energia, escuto as reclamações típicas desse dia, vindas de todos os lados.

À toa, é claro.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.terra.com.br.

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Emir Roos publica neste blog na primeira e terceira segunda-feira do mês.

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